Certo dia estava indo para a faculdade e
ao entrar no ônibus universitário a Glória, antes mesmo de me dar “oi”, me
indagou abruptamente: “por que tu escolheste o Jornalismo como profissão?”.
Sentei ao lado dela e respondi: “Bem, eu amo ler e escrever. Além disso, vendo
tanta injustiça, sempre quis ajudar a sociedade de alguma forma, principalmente
com a população que não tem voz nem vez e no Jornalismo posso ajudar os
cidadãos, fazendo assim alguma justiça social, aproveitando a pressão da mídia
e a exposição dos fatos”. A Glória esboçou um grande sorriso e me entregou uma
revista, não lembro qual. Nela havia uma reportagem sobre a profissão de
jornalista. O texto começava assim: “Pergunte a qualquer jornalista o que o
motivou a escolher a profissão. Além de responder que adoram ler e escrever,
não serão poucos os que dirão que foram movidos por certo senso de justiça”.
Pois é, Jornalismo é dom. E dom inato. Tudo
começou em 1989, quando eu tinha 11 anos de idade. Meu pai sempre foi assinante
da Zero Hora e todos os dias eu esperava ansiosamente a hora do almoço, pois
ele chegava do trabalho com a Zero Hora em mãos. Todos os dias a mesma briga:
minha mãe gritando para que eu fosse almoçar e eu pedindo que esperasse, pois
tinha que ler o jornal. E lia “de cabo a rabo”. Mas o que me prendia eram as
notícias sobre casos de impunidades, de injustiças e de denúncias que ganhavam
publicidade nas páginas do jornal. Eu elegia as melhores “manchetes” e corria
para TV, a fim de assistir a repercussão.
No dia seguinte o ritual se repetia e eu
procurava nas páginas da Zero Hora a continuidade do caso que havia lido no dia
anterior e novamente corria à frente da TV, vibrando com os casos que haviam
sido solucionados (fosse um crime ou um simples problema de saneamento ou calçamento
em um bairro) que beneficiasse a população.
Comecei então a recortar e guardar as
principais notícias e os cadernos especiais que a Zero Hora fazia dos mais
variados assuntos. Até hoje tenho toda a coleção de jornais que juntei desde
aquela época. Meu pai, percebendo meu interesse, me chamou um dia até o quarto
dele e retirou do guarda-roupa uma pasta. Nela estavam recortes de jornais
antigos com vários assuntos interessantes e históricos, como uma reportagem beeeeem
antiga sobre o Titanic. Ele me mostrou um por um, enquanto meus olhos brilhavam,
e por fim, me entregou a pasta dizendo: “É para tua coleção, guarde e faça bom
proveito”. A partir daí cada coisa interessante que saia no jornal ele se
antecipava e separava para mim.
Quando chegou a hora do vestibular não
titubeei: “quero ser jornalista e me formar na Unisinos”. Fiz um único
vestibular, pois se não passasse para Jornalismo, e na Unisinos, não queria
outro curso, nem outra universidade.
Mas por que esse assunto agora? É que para
ser Jornalista não basta cursar faculdade, tem que nascer jornalista. Que fique
registrado, porém, que sou totalmente a favor do diploma. O Jornalismo é mais
que uma profissão, é um estado de espírito. E ver jornalistas ostentando um
diploma do qual não são merecedores, me causa indignação e fere meu senso de
justiça. Da mesma forma que não admito ver um médico que se recusa a salvar
vidas, um advogado que age fora da lei ou uma babá que maltrata crianças não
admito jornalistas que não honram a profissão. Tenho visto ‘colegas’ que só
visam fama e status, que só querem aparecer e ter seu nome conhecido. Ora, como
disse um professor que me deu aula na faculdade, quem quiser ser famoso e
aparecer na TV que coloque uma roupa bem curtinha e vá rebolar no É o Tchan. Quem
quer teu seu nome conhecido em todo país que pose nu para uma revista, mas não
use uma profissão tão digna para fins próprios. A missão do Jornalismo é servir
à sociedade e, mais do que informar, tem que formar e educar cidadãos: a maior
missão do Jornalismo é praticar a responsabilidade social.
E por falar em educar, se depender de
alguns ‘colegas’ da imprensa escrita a população não terá nenhuma ajuda com a
gramática. No início deste artigo contei um fato que ocorreu comigo, quando
minha amiga me entregou uma revista onde havia uma reportagem sobre o que leva
alguém a cursar Jornalismo. Além do papel cívico, um jornalista tem que, no
mínimo, amar ler e escrever. E se ele ama ler e escrever conhece muito bem a
gramática da língua pátria. Começa por aí. O primeiro requisito dos mais básicos para
quem tem verdadeiramente o dom jornalístico é o dom de lidar com as palavras, é
o amor por elas e a facilidade em colocá-las no papel. Não acredito na vocação
jornalística de quem não sabe escrever. Além do mais, os jornalistas têm muita
credibilidade: se um jornalista disse é porque é verdade, se um jornalista
escreveu assim é porque está correto. E aí? Vai ensinar o povo a escrever
errado?
Um ‘jornalista’ que não conhece as mais
básicas das regras gramaticais, como a que diz que não se separa com vírgula o
sujeito do verbo, está se aventurando pela profissão. Ah, mas então quer dizer
que um jornalista não pode errar? Sim, pode! E erra, se engana, comete falhas,
mas daí você sabe que foi um caso isolado, um erro de digitação, a pressa. O
que vejo, porém, são sucessivos e inadmissíveis erros. Sim, a língua portuguesa
é complicada. Mas não para um jornalista que realmente nasceu para a profissão.
Desculpem-me a expressão, mas quando leio um texto cheio de erros tenho vontade
de fazer o ‘jornalista autor’ comer a página! Pior que isso é que conheço
pessoas que além de serem jornalistas são professores de português e não dão
uma dentro! Aí é de doer e pensar no porquê a educação do país está como está.
Para finalizar, jornalista de verdade não
manipula informações. O que vejo de ‘colegas’ distorcendo e omitindo verdades
para fins próprios, e principalmente lucrativos, é de doer na alma. Sei que a
imparcialidade jornalística é mito, pois somos seres humanos e temos nossas
opiniões e preferências. Porém, mentir descaradamente, distorcer e passar
informações falsas para se vingar de alguém, extorquir alguém ou conseguir
benefícios para si é inadmissível. Pior que vi uma jornalista respondendo uma
pergunta de um cidadão e mentindo descaradamente para se vingar de políticos
com quem ela trocou votos por um emprego que não veio. Isso é uma questão de má
índole, de falta de caráter, de escrúpulos e um verdadeiro jornalista, aquele
que nasceu com dom para a profissão, jamais a mancharia com atitudes tão vis.
Enfim, além dos aventureiros, os que se
auto-intitulam jornalistas sem nunca terem passado por uma universidade, temos
que agüentar também os que ostentam um diploma sem fazer jus a ele. É urgente
que se crie um Conselho Federal de Jornalismo para regular essas ações. Assim
como médicos, advogados e tantos outros profissionais perdem suas credenciais
por não exercerem dignamente suas profissões, jornalistas e pseudo-jornalistas
precisam ser fiscalizados ou a profissão perderá seu prestígio e seu verdadeiro
objetivo.

2 comentários:
Oi, gostei muito do seu texto! Pretendo cursar Jornalismo, mas estou em dúvida!! Seu texto me ajudou muito, me identifiquei! Obrigada, sucesso!
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