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09 maio, 2006

INVENTAR O QUINTO PODER

O texto a serguir foi publicado no site da Revista Carta Capital. Resolvoi postá-lo na íntegra por se tratar de um assunto de extrema importância para a imprensa, historiadores e sociedade em geral.
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O professor inglês Roger Silverstone defende, em livro publicado no Brasil, que a sociedade se alfabetize em mídia para desafiar o Quarto Poder.

Por Ubiratan Muarrek

A imprensa britânica (e, talvez, não apenas a britânica) caminha para a autodestruição. A lógica da criação e destruição de celebridades, o círculo vicioso de sensacionalismo e fofoca, o interesse puramente comercial e a recusa em abrir-se para o questionamento de seus próprios mecanismos e valores são indícios de uma crise nos meios de comunicação cujo resultado é o declínio do engajamento político, o aumento do individualismo e o ocaso da cidadania. Essa é a opinião de Roger Silverstone, titular da cadeira de Mídia e Comunicações da London School of Economics, em Londres, que lança no Brasil Por que Estudar a Mídia?
Silverstone argumenta que a mídia se tornou central para a experiência humana. Seu controle sobre o fluxo de palavras e imagens em escala global – e sobre processos sociais, políticos e culturais – só aumenta, como também aumentam as reações de indivíduos, comunidades e governos contra sua influência. Por isso, ela tem de ser estudada. Mais que isso: esse conhecimento deve se difundir na sociedade, criando uma massa de cidadãos alfabetizados em mídia, que só assim poderiam desafiar seus pressupostos éticos e funcionais. Teríamos então um Quinto Poder, constituído por uma cidadania informada cuja missão seria fiscalizar o Quarto Poder – ou seja, a mídia.
Roger Silverstone já teve publicado no País Televisão e Vida Cotidiana, livro influente em que analisa a televisão como um veículo doméstico. Em Por que Estudar a Mídia? reforça o argumento: é no dia-a-dia das pessoas, e não na cobertura de grandes eventos e catástrofes, que a força da mídia se mostra mais eficaz, contribuindo decisivamente para a formação do senso comum. E procura explicar como a mídia funciona e como nos relacionamos com ela, analisando da poética de Aristóteles à transmissão pela tevê do funeral da Princesa Diana.
Silverstone escreveu um manifesto, distante da famigerada linguagem acadêmica. “Eu quero ser lido”, diz ele, para quem o conhecimento da mídia e sua democratização são um projeto político fundamental para formar cidadãos no século XXI. A seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: O senhor diz que os estudos de mídia devem falar com a sociedade, “alfabetizando” os cidadãos em relação à mídia. Quais os desafios desse projeto?
Roger Silverstone: A cidadania no século XXI requer um grau de conhecimento que até agora poucos de nós têm, que requer do indivíduo que saiba ler os produtos da mídia e que seja capaz de questionar suas estratégias. Isso envolveria capacidades que vão além do que foi considerado alfabetização em massa na época da mídia impressa. Houve um tempo em que a mídia impressa colocou esse desafio: foi considerado suficiente que as populações pudessem ler, e os avanços na leitura, ou seja, um questionamento crítico do que se lê, sempre foram considerados uma ameaça para os poderes estabelecidos. A facilidade com que consumimos a mídia atualmente, pela atração de suas imagens e simplicidade de suas formas narrativas, poderia sugerir que a alfabetização não é mais uma questão. Eu sugiro que a alfabetização em mídia é mais necessária do que nunca, precisamente porque ela é fundamental para a construção de identidades, o senso de nós mesmos no mundo e nossa capacidade de agir dentro dele. Tenho em mente um debate contínuo: o cidadão deve se tornar um membro do Quinto Poder alfabetizado em mídia, para desafiar o Quarto Poder – ainda que os pontos levantados pelos estudos de mídia não sejam sempre fáceis de se traduzir em recomendações claras para a conduta do dia-a-dia.

CC: E quais os obstáculos?
RS: São muitos. É improvável que a própria mídia dê apoio – ela tem sido crítica em relação à produção dos estudos de mídia, que vê como irrelevantes; ou cínica na mobilização das descobertas desses estudos que considera cômodas para si. É improvável que os políticos também enxerguem nossa agenda de maneira clara; para eles, a mídia é um instrumento para a administração da realidade política, um espinho em suas costas ou marginal aos verdadeiros negócios da política. No Reino Unido, os estudos de mídia têm uma reputação terrível de ensinar coisas sem sentido sobre novelas e programas de auditório. Seus objetivos são mal compreendidos e eles podem estar sendo mal-ensinados. A conversão desse baixo nível de conhecimento em um conhecimento ligado à criação e prática da cidadania é uma tarefa imensa e essencial. O declínio no engajamento político em tantos países avançados e a ascensão do individualismo não podem ser dissociados dos altos níveis de consumo acrítico da mídia.

CC: A sociedade, no entanto, parece impregnada de pânico moral (medo diante da inovação tecnológica e dos valores divulgados pela mídia). O que o senhor diria a uma dona de casa: a violência como aparece na mídia influencia ou não as crianças?
RS: Eu diria a essa dona de casa que uma dieta contínua de violência e sexo na televisão vai trazer consequências negativas para a qualidade de vida de seus filhos. Isso em si não vai transformá-los em assassinos psicopatas, apesar de poder fazer isso se a criança for particularmente instável ou vulnerável. Por outro lado, uma dieta descontínua desses programas, um menu mais variado, assim como um meio social que faça a mediação daquilo que aparece na tevê – através de conversas, maior envolvimento dos pais, uma classificação clara do conteúdo e uma educação em relação à mídia –, poderia reduzir os perigos e criar um engajamento mais positivo e criativo. Há pouca evidência de que a mídia sozinha nos transforme em psicopatas e de que assistir uma só vez a uma cena terrível irá produzir um dano permanente.

CC: O senhor diz em seu livro que a mídia reflete o dia-a-dia, como um espelho da sociedade. Por que, ao contrário dos políticos, os profissionais de mídia não se sentem na obrigação de prestar contas pelo que fazem?
RS: A imprensa tem uma história de ser agente de oposição política e questionamento radical, assim como de ser um instrumento de governo e agente de repressão. Sociedades diferentes tiveram uma imprensa que aceitou um certo grau de responsabilidade e de serviço público – a BBC é um exemplo. Nesses casos, a mídia assumiu e assume essa “responsabilidade pelo social”. Mesmo os tablóides britânicos, que atualmente estão em seu período mais populista e irresponsável, argumentariam que não apenas eles estão entregando o que seu público quer (e, nesse sentido, oferecendo um serviço público), mas de fato fornecendo uma crítica apropriada das hipocrisias do governo. Eles iriam igualmente argumentar que o seu sucesso e, em conseqüência, sua responsabilidade devem ser medidos em leitura e índices de audiência. Mas há, no entanto, observando a imprensa britânica, uma absoluta crise de responsabilidade. A imprensa britânica está se movendo para a autodestruição, do mesmo modo que Marx acreditava que o capitalismo iria se autodestruir: uma implosão na base de seu próprio sucesso e como resultado de suas próprias regras de acumulação. A imprensa está num círculo vicioso de sensacionalismo e fofoca que mina cada vez mais os limites entre a vida pública e a vida privada, e está totalmente escrava do círculo infinito de criação e destruição de celebridades. E os grandes jornais estão sendo arrastados a esse mesmo discurso, pelas mesmas pressões de vendas em queda e contração de mercados. Isso só pode resultar em desastre, com um progressivo desencantamento e o abandono do noticiário como um todo e, em conseqüência, de uma cidadania informada e engajada.

CC: A mídia, porém, não reflete sobre si mesma; os veículos evitam ao máximo indagações sobre o “como somos feitos”. Se ela é tão central, como abrir mão de que ela própria seja uma plataforma de debate sobre os seus mecanismos?
RS: A mídia é intensamente não-reflexiva sobre a sua própria prática. Mas ela deve ser encorajada a mudar. Agora, na Grã-Bretanha há iniciativas acadêmicas de estudos e debate público sobre ética na mídia. Será interessante observar como a imprensa, principalmente, irá responder a uma interrogação informada e persistente sobre a sua prática.

CC: No Brasil, há quem defenda o controle do conteúdo da mídia, feito pela sociedade e intermediado pelo Estado. O senhor diz em seu livro, no entanto, que governos temem perder controle sobre esse conteúdo...
RS: É possível que cada vez mais tenhamos uma situação polarizada em que, de um lado, uma mídia poderosa e independente vai tornar as sociedades ingovernáveis; ou, de outro lado, a necessidade que percebemos para um controle estatal máximo vai resultar numa mídia totalmente subjugada. A primeira situação é visível, ainda que embrionária, no Reino Unido; e, a segunda, nos EUA pós-11 de setembro. Parece improvável que sem um esforço político apoiado por estudos radicais de mídia possamos encontrar uma terceira via. Será cada vez mais difícil controlar o fluxo da mídia através de atos do governo, porque a tecnologia e as empresas irão encontrar meios de driblar a regulação. Os lares têm poder de fazer escolhas (de fato o mercado pede a eles que as façam); os Estados podem restringir mas não eliminar completamente essas escolhas. Há duas maneiras pelas quais indivíduos em seu espaço doméstico podem ser encorajados a tomar decisões informadas sobre seu consumo de mídia. A primeira é rotular o conteúdo de acordo com um padrão (algo que pode ser imposto em convenções internacionais); e instituindo um programa de alfabetização de mídia, no qual poderiam aprender a fazer escolhas sobre o que e como consumir.

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03 maio, 2006

POR UMA OUTRA COMUNICAÇÃO

Entrevista concedida pelo professor Dênis de Morais* à revista Nós da Escola.
Fazendo Média
NE: Um outro mundo só é possível se houver um processo de democratização efetiva da comunicação? Por quê?

MORAIS: O sistema de comunicação atual apresenta duas graves distorções:1) a propriedade dos meios está absurdamente concentrada nas mãos de um reduzido número de grupos empresariais, a maioria deles transnacionais, que controlam a produção e a difusão de grande parte das informações e dos entretenimentos em circulação; 2) essas organizações atuam de maneira praticamente autônoma, priorizando estratégicas mercadológicas que rentabilizem ao máximo seus investimentos e realçando determinados valores na elaboração de suas programações. São vários os impactos e efeitos negativos, e eu destaco dois: a escassa diversidade ideológica nos conteúdos veiculados e a comercialização de bens simbólicos numa proporção verdadeiramente alarmante. É impossível imaginar uma democratização efetiva da vida social sem uma profunda revisão da configuração elitista e mercantilizada da mídia. Afinal, ela ocupa papel decisivo na reverberação de idéias e visões de mundo, interferindo, de modo significativo, na conformação do imaginário social. Para assegurar a livre circulação de informações e o pluralismo cultural, impõe-se um controle democrático sobre esses aparatos ideológico-culturais, principalmente aqueles que são concessionários de canais de televisão e rádio. Se obtêm licenças para operar, é mais do que justo que as empresas concessionárias se submetam a regras e marcos estabelecidos pelo poder público, em consonância com os interesses da coletividade. Os canais pertencem à sociedade, e não aos players de mídia. Do mesmo modo, é urgente uma profunda revisão da legislação sobre os meios de comunicação, a fim de que se fixem marcos regulatórios que contemplem os interesses sociais e coíbam a concentração e a oligopolização dos meios. Exijamos políticas públicas de comunicação assentadas em mecanismos democraticamente instituídos de regulação, de concessão, de tributação e de fiscalização. Políticas debatidas por segmentos representativos da opinião pública e formuladas com realismo, considerando as transformações da era digital e seus efeitos socioeconômicos.

NE: Qual o papel da contra-informação no contexto da globalização?
MORAIS: Contra-informação é uma noção que permite várias interpretações e apropriações. Se a entendermos como práticas de comunicação voltadas à difusão de conteúdos que questionem o status quo e defendam os direitos da cidadania, penso que seu papel é valioso. Trata-se de alargar e interligar, planetariamente, experiências independentes de divulgação, a partir de ações cooperativas e colaborativas capazes de multiplicar e entrosar fontes de informação, fomentando o debate de idéias transformadoras e o pluralismo cultural. A comunicação eletrônica em rede, particularmente a Internet, abre um campo de possibilidades a explorar e aprimorar. As tecnologias digitais introduzem ferramentas comunicacionais de novo tipo e instituem espaços promissores de intercâmbio, participação e mobilização. Com baixo custo, rapidez e arquitetura descentralizada, a rede favorece a difusão extensiva de informações e conhecimentos, sem submetê-los às hierarquias de juízos e aos filtros da mídia convencional. No espaço desterritorializado da Web, movimentos comunitários e organismos sociais podem difundir percepções críticas e campanhas em prol dos direitos da cidadania. É importante, porém, salientar que a Internet constitui uma vertente complementar ou suplementar de informação, expressão e interação. Não substitui ou anula os demais canais, que continuam válidos e bastante necessários. Veja bem: apontar potencialidades da rede virtual em absoluto significa subordinar as lutas políticas ao avanço tecnológico, ou ainda aceitar impulsos voluntaristas que tendem a menosprezar as mediações sociais e os mecanismos clássicos de representação política. Continuo achando que é no território físico, socialmente vivenciado, que se tece o imaginário do futuro.

NE: O que você pensa sobre os projetos de inclusão social pela mídia, TVs e jornais comunitários? Até que ponto são válidos? De uma forma geral eles costumam reproduzir num ambiente específico o discurso da mídia em relação a qual se apresentam como "alternativa"?
MORAIS: Tenho grande apreço pelos projetos de inclusão social através de meios alternativos de comunicação, principalmente os que se estruturam a partir de vínculos com as comunidades pobres e marginalizadas. Isso é fundamental como resposta e reação à crônica desconfiança e mesmo ao desprezo da grande mídia pela vida, pelos valores e pelos modos de expressão da classe operária. Quanto mais rádios, televisões e oficinas comunitárias tivermos, mais chance teremos de contribuir para a formação de consciência cidadã, inclusive dando voz e imagem às aspirações e aos sentimentos das maiorias excluídas. É verdade que, às vezes, percebemos a reprodução de elementos do discurso informativo da mídia num jornal ou num programa comunitário. Embora a renovação discursiva deva ser um objetivo a perseguir, não me parece que a reprodução de certos padrões constitua, em si, um obstáculo intransponível à comunicação descentralizada e participativa. A linguagem, sem dúvida, é fator relevante e deve ser imaginativa e ousada; mas temos que avaliar, simultaneamente, a natureza dos conteúdos transmitidos, sua adequação ao público-alvo, sua coerência ideológico-cultural, sua capacidade de mexer com as emoções e despertar o ânimo dos destinatários para o enfrentamento da realidade. Só não podemos cultivar a ilusão de que resolveremos tudo através de projetos comunitários, por mais que sejam componentes indispensáveis na longa luta pela democratização da comunicação. Temos que perseverar, em todos os planos, para mudar radicalmente a sociedade brutalizada e mercantilizada que aí está. Implica revitalizar a sociedade civil enquanto arena reivindicante, articular forças em todos os quadrantes para revalorizar a política como âmbito de representação de anseios e construir alternativas socioeconômicas e político-culturais humanizadoras.

NE: Como a escola pública pode contribuir para trabalhar com crianças e adolescentes a maneira de lidar com a informação, de se relacionar com a mídia e com a sociedade audiovisual? Como o tema da "democratização da comunicação" pode ser abordado por professores no seu dia a dia com os alunos?
MORAIS: Há vários caminhos para uma ação conseqüente e articulada: projetos de leitura crítica dos meios de comunicação; oficinas de criação de conteúdos informativo-culturais alternativos; oficinas de webmídia para aproveitamento educativo-cultural de espaços virtuais de difusão e interação (blogs, publicações eletrônicas, murais, grupos de discussão, comunidades de interesses); estímulo à pesquisa comparada na Web, para evidenciar como os fatos e os acontecimentos podem ser abordados de distintos modos em diferentes veículos de informação; ciclos de palestras de profissionais comprometidos com o desenvolvimento de projetos sérios de comunicação participativa e inclusiva. Mas tudo isso precisa obedecer a uma concepção estratégica que integre ações formativas e intervenções críticas, no marco de políticas de comunicação de curto, médio e longo prazos. Isto exige um persistente e demorado processo de lutas, campanhas reivindicatórias e pressões organizadas para se democratizar a esfera pública, realçando-se o papel dos meios e sistemas comunicacionais na elaboração de programas, produtos, discursos e linguagens socioculturais não contaminados pela obsessão neurótica de lucratividade - obsessão constitutiva e condicionadora da lógica mercantil e perversa do modo de produção capitalista.

(*) Dênis de Moraes é professor da UFF e pós-doutor em Comunicação pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales.

09 novembro, 2005

ENTREVISTA
GILDO CAMPOS:
O sucesso e o reconhecimento em contraste com a simplicidade.

Cantor, compositor e músico, Gildo José Pereira Campos, natural da cidade de Triunfo, interior do Estado, descobriu seus dons musicais aos quatro anos de idade. Hoje, aos 56 anos, é um artista conceituado e motivo de orgulho para sua cidade. Entrevistado pela jornalista Tatiana Vasco, em uma pequena sala de um dos casarões históricos da cidade, onde está instalada a Secretaria Municipal de Turismo e Cultura, ele fala de sua carreira, de sua vida e se emociona ao lembrar de seu pai que foi sua inspiração para compor a música "É disso que o velho gosta", gravada pela cantora Berenice Azambuja. Simples, humilde e cativante, ele respondeu a cada pergunta cantando trechos de suas músicas.

TATIANA VASCO: Como você descobriu seus dons musicais? Vens de uma família de músicos?
GILDO CAMPOS: Descobri minha aptidão musical aos quatro anos de idade, quando um tio meu esqueceu uma gaita de oito baixos em minha casa. Duas semanas depois, quando ele foi buscá-la eu já sabia tocar melhor que ele, então ele me deu a gaita de presente. Eu sentava num banquinho e minha mãe carregava a gaita para mim, por causa do peso, e colocava-a no meu colo. Fora este meu tio que tocava por hobby, ninguém mais na minha família era músico. Acho que foi um desígnio de Deus. Acredito que não existe acaso, tudo que acontece está previamente escrito. Era para o meu tio ter esquecido aquela gaita. Hoje, dois dos meus filhos seguem meus passos, formam uma dupla de música sertaneja e gaúcha: Daniel, de 19 anos, e o Gabriel, de 16. Querem gravar um Cd e vou ajudá-los, mas não aceito que sejam reconhecidos porque são meus filhos. Eles só farão sucesso se tiverem competência. E isso eles têm.

TV: Quando você começou a compor e a cantar?
CAMPOS: Aos nove anos de idade aprendi a tocar violão e comecei a sentir a necessidade de expor, de cantar, as minhas idéias. Então, aos 10 anos comecei a compor.

TV: Sobre a música "É disso que o velho gosta", quando e onde você a compôs?
CAMPOS: Como todos os jovens da época em início de carreira, eu comecei compondo músicas românticas. Esta foi a minha primeira composição do gênero gaúcho e a compus em 1977.

TV: Essa música fala da vida de um homem simples, do campo e de sua relação comas tradições. Essa é a história da sua vida ou de alguém que você conhece?
CAMPOS: Sim, é a minha história e a do meu pai. Ele era uma pessoa hospitaleira, simples, e que tinha muito orgulho de eu ser artista. Então me inspirei no meu pai. "Churrasco e bom chimarrão...", meu pai criava ovelha somente para carnear e oferecer aos amigos que nos visitavam e tomava chimarrão o dia inteiro. "Fandango, trago e mulher..." Ele ia muito a bailes, tomava o traguinho dele e, de mulher, quem não gosta? "Eu sou um peão de estância nascido lá no galpão", pois nasci em uma chácara, no Passo Raso, 3º distrito de Triunfo, onde mro até hoje. Não foi nada forçado, um dia me sentei para escrever e comecei a lembrar do meu pai, que já havia falecido e a letra foi fluindo. Essa música é uma homenagem póstuma ao meu pai que é o meu ídolo, e foi o meu alicerce. "Aprendi desde criança a honrar a tradição". (Emociona-se)

TV: Essa música foi gravada pela cantora regionalista Berenice Azambuja. É verdade que foi sem sua autorização e que você teria movido um processo contra ela?
CAMPOS: Saiu esse boato. As pessoas mal informadas fazem confusão. Ocorreu o seguinte: de 1974 a 1978 participei do Grupo Açoriano, um grupo de música gauchesca muito importante na época. Eu itegrava o grupo como gaiteiro. Fazíamos shows, tocávamos em bailes e chegamos a gravar um LP. Não existia CD ainda, se alguém falasse em CD seria taxado de louco (Risos). Em 1977, a Berenice procurou o grupo, pois era amiga dos outros rapazes e precisava de músicas para completar um LP. Então, meus colegas me apresentaram a ela que quis gravar a minha música e me pediu parceria. Eu não sabia nada na época, era leigo em termos de música, eu não sabia dos trâmites legais e, muito menos, que tinha 50% dos direitos autorais. Na real, nem sabia o que era. Ela me pediu parceria, me apresentou um papel e eu assinei sem saber que estava abrindo mão dos meus direitos e os cedendo a ela. Não me arrependo porque, talvez, se ela não tinvesse gravado essa música estaria engavetada como tantas outras que tenho e ninguém sabe que existem e tu não estarias aqui hoje fazendo essa entrevista comigo. Ela foi esperta, não posso acusá-la de ter trapaceado, jamais me ocorreu processá-la, pois eu concedi o direito que ela tem. Fui ingênuo!

TV: E como ficam hoje teus direitos autorais? Você ganha uma porcentagem toda vez que ela é regravada?
CAMPOS: Essa música hoje tem mais de 30 regravações de sul a norte do país. Chitãozinho e Xororó, Sérgio Reis, Osvaldir e Calos Magrão, só para citar alguns. Foi regravada até por uma banda de forró, lá no Nordeste. Hoje, sim, a cada vez que ela é regravada eu ganho uma porcentagem, mas não é muito, o compositor ganha muito pouco, e com essa pirataria de Cds, ficou pior.

TV: Em um programa da Hebe Camargo sua música foi cantada e seu nome mencionado pela dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó. Como você se sente sendo o autor de uma música famosa, conhecida nacionalmente e, mesmo assim, sendo para a maioria das pessoas um artista anônimo, simples, que mora em uma cidade pequena do interior do Estado e que trabalha como funcionário público?
CAMPOS: Sou muito feliz. Eu digo para minha esposa que somos felizes, nossos filhos podem estudar, têm saúde. Temos o suficiente para viver. Tenho amigos, o que é a coisa mais importante da vida da gente. Minha vida é cantada de sul a norte do país por cantores famosos e isso para mim é uma honra, um orgulho. Se um dia eu prosperar e for reconhecido nacionalmente vou continuar sendo o mesmo Cará (apelido) que tu conheces, quero poder ajudar a quem precisa. E vou continuar morando aqui em Triunfo, na mesma chácara em que nasci, trabalhando na prefeitura, sendo a mesma pessoa, "amigo dos amigos". Crio os meus filhos nessa, digamos assim, filosofia de vida. Estamos no mundo para ajudar uns aos outros e não para nos espezinharmos. Não quero ganhar milhões e ter que contratar quinhentos leões-de-chácara para ficarem ao redor da minha casa para me isolar do mundo, fazer um muro de cinco metros de altura para me proteger da criminalidade. Porque se tu não faz grandes exibições não corre risco. Imagine não poder mandar meus filhos para a escola com medo de serem seqüestrados! Meus filhos são tudo para mim, dou minha vida por eles, não vou colocá-los em risco por causa de dinheiro. Não vale a pena ter carro importado, jatinho, mansão e não poder andar na rua como ando aqui em Triunfo, ir ao supermercado, por exemplo. Claro que quero ter o melhor para viver bem, mas não quero tudo só para mim. Não posso ter milhões de dinheiro no banco e ver meu vizinho passando fome. Estamos aqui de passagem, não levaremos nada de material. Temos que ter o suficiente para viver, mas poder fazer o que gostamos. Meu maior sonho é poder, um dia, ter dinheiro para ajudar a quem precisa. E se isso acontecer tu vais ver que é isso que vou fazer e que não vou mudar meu jeito de agir. Meu maior prazer, minha maior felicidade, seria poder ajudar os que não tiveram sorte, saber que meu amigo não tem um quilo de feijão para dar aos filhos e que eu posso ir lá e comprar para vê-lo mais feliz. Esse é o meu maior sonho!

TV: Você compôs outras músicas que tenham sido gravadas por artistas conhecidos?
CAMPOS: Atualmente estou acompanhando o Valmir Martins (garoto propaganda da Raspadinha Gaúcha da Sorte). Toco violão para ele nos shows e componho também.

TV: Você foi recentemente num show do Sérgio Reis e o conheceu pessoalmente. Como foi esse encontro para você?
CAMPOS: Acontece que o empresário do Valmir Martins foi quem promoveu o show do Sérgio Reis, na sexta-feira passada, dia 19 de março (2004), em Porto Alegre. Pedi a ele que me desse uma força para conhecê-lo já que ele foi um dos que regravou a minha música e nem sabe quem sou. Fui até o camarim dele antes do show, me apresentei, ele me contou que decidiu gravar a minha música porque estava caminhando em uma rua em São Paulo, a ouviu em uma loja de discos e a achou muito bonita. Entreguei a ele quatro composições inéditas para ele analisar e decidir se quer gravar pelo menos uma. Depois, fui para o meio do público assistir ao show. De repente, ele contou novamente a história da regravação da música e perguntou onde estava o compositor Gildo Campos. Não acreditei, levantei o braço e ele me chamou para o palco para cantar a música que eu compus, a minha música, com ele. Foi muita emoção, me senti realizado!

TV: Quais são seus planos para o futuro?
CAMPOS: Continuar compondo, cantando e me apresentando por aí. Investir nos meus filhos e na carreira deles e ficar aqui torcendo para que o Sérgio Reis goste das minhas músicas e grave alguma. Espero ainda ser reconhecido a nível nacional.

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Entrevista realizada em abril de 2004, para a cadeira de Entrevista e Repostagem.

PERFIS FALSOS NO ORKUT ACABAM EM CADEIA!